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No Japão, existe uma lenda popular, aparentemente baseada no budismo, chamada “Sai no Kawara”, onde crianças falecidas antes de seus pais são punidas pelo pecado de ingratidão em entristece-los, e são obrigadas a empilhar uma torre de pedras (cairn, em inglês) para cultuar os espíritos de seus genitores. No momento em que a criança está próxima de concluir a torre, surge um Oni (demônio, ogro) e destrói a obra, obrigando-a a reiniciar o trabalho, repetindo-o, por muitos e muitos anos.
Talvez a metáfora seja um pouco exagerada, mas independente de apontar onde (ou em qual país) fica esse “limbo das almas inocentes”, muitas crianças envolvidas no movimento migratório enfrentam dificuldades a cada mudança de ambiente, o que implica em readaptação e re-alfabetização.
Ilustrando: uma criança brasileira, que já havia iniciado seus estudos no Brasil, se muda ao Japão acompanhando os pais. Num país de língua e cultura totalmente diferentes, se empenha ao máximo para acompanhar as aulas, e vai aprendendo aos poucos a comunicar em japonês, perdendo gradualmente o domínio da língua portuguesa. De repente, explode a atual crise econômica mundial, que os pegou desprevenidos, e sua família se vê obrigada a retornar ao Brasil, sem tempo de se preparar adequadamente para o regresso. A torre caiu, e não há alternativas se não retomar o bê-á-bá, pela “terceira vez”, dificultando que o conhecimento se sedimente.
Naturalmente, há crianças que tiveram o privilégio (que se consolidou através de seus esforços) de ter uma educação bilíngüe, ou que mantiveram a língua portuguesa. Por outro lado, existem crianças que não tiveram oportunidade de desenvolver seus conhecimentos em nenhuma das línguas, apresentando um quadro que vem sendo denominado de “Double-limited”, tendo, desde dificuldades de comunicação (p.ex. uso excessivo de linguagem monossilábica), até a capacidade de abstração prejudicada.
A comunidade nipo-brasileira já enfrentou uma questão de natureza semelhante na História da Imigração Japonesa no Brasil, quando muitos nisseis, primogênitos em sua maioria, foram impedidos de prosseguir seus estudos, por vezes se sacrificando para que seus irmãos mais novos tivessem acesso à educação plena. Mas os tempos e contextos são outros. Ao contrário de 100 anos atrás, em que nossos antepassados chegaram a uma terra totalmente desconhecida, agora existe a possibilidade, e ao mesmo um grande desafio, de planejar uma estrutura para recepcionar nossos patrícios com um “okaerinasai” (sejam bem-vindos de volta), não apenas em forma de palavras, mas com projetos concretos de reinserção social.
Muitas vezes criticamos escolas japonesas, ou mesmo escolas brasileiras no Japão, de maltratar, fazer descaso ou mesmo discriminar e humilhar nossas crianças. E agora, com o grande número de crianças que estão retornando... Será que vamos repetir os mesmos erros?